
William Shakespeare, lembrando que a rosa não perderia o perfume e nem a beleza se não se chamasse rosa, perguntava: “Um nome, que importa um nome?” Pelo raciocínio shakesperiano, o que chamamos de rosa, com outro nome exalaria o mesmo perfume agradável, e assim Romeu, se outro nome tivesse, teria, com Julieta, o mesmo fim, haja vista que, tal qual o casal no drama de Hamlet, existem pessoas que valorizam mais os laços sociais do que suas próprias vidas.
Os anos 80 e 90, no Rio Grande do Sul, foram pródigos na realização de festivais de músicas inéditas, cada qual com nome próprio. Cada cidade queria realizar o seu evento. Virou uma epidemia. Só para citar alguns, lembro a Califórnia, a Tertúlia, a Ciranda, a Coxilha, a Moenda. Ao final de cada nome, traziam ou trazem as expressões “de nativismo” ou “da canção nativa”.
Ao todo, o Estado gerou em torno de cem. Quase todos sucumbiram.
O festival de Santa Rosa (por coincidência, a rosa aqui, com seus matizes e seu perfume, fulgurante entre espinhos, também está presente), o Musicanto Sul-Americano de Nativismo, mesmo que não se chamasse Musicanto (nome-marca de propriedade de Luiz Carlos Borges, cedido por ele gratuitamente para a Prefeitura Municipal local), teria alcançado a mesmo repercussão? Creio que sim. Por quê? Porque, seus idealizadores, fugindo do formato tradicional dos festivais nativistas, adicionaram-lhe dois ingredientes fundamentais: um ideológico (um festival sem amarras, limitado apenas à natural limitação dos autores das músicas), outro geográfico (transbordando dos muros do território gaúcho).
Mas, com todo o encanto que se tem pela rosa, beleza essa que faz que faz esquecer seus espinhos, quem não souber contemplá-la, encontrará, no contato físico, espécie de lâminas de navalhas que poderão feri-lo impiedosamente (ao contrário do bálsamo que perfuma o machado que o golpeia). Por isso, não basta a razão para o desencadeamento com sucesso de eventos culturais; é imprescindível a razão aliada à sensibilidade que brota do coração do ser humano.
O Musicanto passou por várias mudanças, e isso é positivo. Nesse vai e vem, ocorreram avanços e - reconheço - também recuos. Felizmente, não perdeu seu norte. Até as mudanças frustradas serviram para fortalecer a convicção do acerto dos criadores do festival em cima dos dois pilares já referidos: abrangência sul-americana e limitação restrita apenas à limitação humana.
Ao lançarmos, de forma definitiva, o SITE da OSCIP/MUSICANTO, estamos colocando o festival ao alcance do mundo. Queremos que essa ferramenta nos aproxime ainda mais. O SITE é um dos instrumentos de profissionalização do Musicanto Sul-Americano de Nativismo que estamos promovendo. Sempre achei que profissionalismo (para que nunca sofra solução de continuidade) e amor à arte (dando vazão às coisas do coração) podem e devem andar de mãos dadas.
A mudança do local de realização do Musicanto, do Centro Cívico para o Parque de Exposições, por si só pouco representa. Não deixa, no entanto, de sinalizar um novo momento, o qual, porém, só se completará com a promoção de eventos paralelos, que já se está a agregar. Por isso, só no Parque ou em espaço assemelhado essa meta tornar-se-á realidade, estabelecendo-se, em consequência, a partir daí, um diferencial na comparação com os demais festivais.
* Presidente da Oscip/Musicanto
